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Corredora denuncia racismo na Beira-Mar, em Fortaleza, ao ouvir de ciclista que ela deveria correr na periferia

G1 (Globo)
Corredora denuncia racismo na Beira-Mar, em Fortaleza, ao ouvir de ciclista que ela deveria correr na periferia

Corredora denuncia racismo na Beira-Mar após idosa dizer ela deveria correr na periferia
A professora Débora Sandyla, de 32 anos, denunciou ter sofrido racismo durante um treino de corrida na última sexta-feira (10), na avenida Beira-Mar, em Fortaleza. De acordo com a docente, uma ciclista idosa se incomodou após as duas dividirem o espaço na faixa da orla. "Pessoas como você não deveriam estar correndo na Aldeota, deveriam estar correndo na Barra do Ceará", teria dito a mulher, em uma distinção entre a "área nobre" e a periferia da capital cearense. A Polícia Civil investiga o caso.
Ao g1, Débora disse que voltou à Beira-Mar neste domingo (12), em meio a "um misto de sentimentos, pois denunciar o racismo exige coragem".
"As últimas horas têm sido difíceis, pois com a repercussão do caso tenho recebido mais injúrias em minhas redes. Por outro lado, também estou sendo muito fortalecida por pessoas que antes nem conhecia e que se juntaram a causa. Hoje tive dúvidas sobre voltar ou não a correr na Beira Mar, no entanto tinha um treino para realizar e resolvi não baixar a cabeça. Fui e voltei a me apropriar deste lugar que também me pertence", comentou.
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Na sexta (10), Débora, uma mulher negra, relatou o caso de racismo nas redes sociais. A professora explicou que mora no bairro Praia de Iracema há cerca de dois anos e corre constantemente na orla da Beira-Mar.
Na sexta-feira, ela estava correndo quando, na altura da Praia do Náutico, ouviu a ciclista se dirigir a ela, dizendo que Débora saísse da frente para ela passar - a Beira-Mar, uma das áreas mais valorizadas da cidade, possui uma faixa compartilhada entre ciclistas e corredores.
"Ela falou, já bem arrogante, falou que eu tinha que correr olhando pra trás. Eu achei estranho", relembra a professora.
"E aí ela já tava reclamando de mim, porque eu respondi, eu falei que eu não tinha como correr olhando pra trás, mas não respondi com grosseria, respondi só de forma direta, quem me conhece sabe que eu sou direta. Aí ela falou, presta atenção nessa frase: 'Pessoas como você não deveriam estar correndo na Aldeota, deveriam estar correndo na Barra do Ceará'", conta Débora.
Para a professora, a associação a ela, como mulher negra, correr apenas na Barra do Ceará - um bairro periférico -, demonstrou a atitude racista da idosa. "Por que eu não posso correr na Beira-Mar? Porque a Beira-Mar tem que ser o quintal deles? Não pode ser o meu quintal?", questionou.
A professora Débora Sandyla denunciou ter sofrido racismo enquanto corria na Beira-Mar, em Fortaleza.
Reprodução/ Arquivo Pessoal.
Discussão
Após ouvir a frase, Débora interrompeu a corrida e parou a bicicleta da idosa. As duas então começaram a discutir, e a professora pediu ajuda aos demais pedestres, tanto para manter a mulher mais velha no local quanto para chamar a polícia. A professora contou que, no entanto, as testemunhas passaram a acolher a idosa, e a polícia demorou a aparecer.
"Demorou uns 5 minutos pra chegar alguém. Quando apareceu, a mulher chegou alisando a senhora. 'Oi, minha senhora, o que foi que aconteceu?'", relembra Débora. "Era todo mundo acolhendo aquela senhora, as pessoas não me acolhiam, poucas pessoas queriam ouvir, de fato, a minha versão, o que tinha acontecido".
Débora e a idosa foram encaminhadas à Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin), onde as duas foram ouvidas e foi registrado um boletim de ocorrência. A identidade da idosa não foi divulgada e a defesa dela não foi localizada.
Por meio de nota, a Polícia Civil confirmou que investiga uma denúncia de injúria racial e que já iniciou as apurações,com intuito de elucidar o caso. No Brasil, desde 2023 a injúria racial passou a ser equiparada ao crime de racismo, considerado inafiançável e imprescritível.
Para a professora, o caso demonstra como o racismo atinge todas as pessoas negras, mesmo aquelas com melhores condições financeiras.
"A tua raça vai chegar primeiro. Porque eu tava caracterizada de corrida. Relógio Garmin caro, um tênis caro, roupa, com a viseira da minha assessoria, com meu fone, com meu iPhone, e daí? Não importa, a tua cor vai chegar primeiro. Tu pode ser rica, tu pode ser pobre, mas tu tem que correr na Barra do Ceará. E não tenho nada contra a Barra do Ceará, inclusive, eu amo, pra mim alguns lugares mais bonitos na cidade, mas eu moro aqui [na Praia de Iracema]", afirma.
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