Como falha do novo Air Force One levou Trump a tentar 'caça às bruxas' contra jornalistas

Donald Trump desembarca do novo Air Force One na Base Aérea Andrews
Julia Demaree Nikhinson/AP Photo
No início do mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, embarcou na Turquia no Air Force One, o avião presidencial, para retornar de um encontro de líderes da Otan.
Chamou a atenção porém, que o avião usado não foi o recém-inaugurado Boeing 747-800 doado pelo Catar ao líder americano, que se tornou a menina dos olhos do segundo mandato de Trump – mas sim uma versão antiga, derivada de um 747-200B, que consta no inventário da Casa Branca há mais de três décadas.
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Em sua rede social, Trump disse que usaria a versão antiga “em nome dos velhos tempos”, mas a declaração foi vista com desconfiança. Pouco depois, o “New York Times” publicou o real motivo da troca de aeronaves, e a reportagem acabou deflagrando uma tentativa de “caça às bruxas” pelo governo contra o jornal.
O jornal ouviu funcionários do Serviço Secreto sob condição de anonimato, os quais disseram que a aeronave doada pelo Catar não tinha condições de segurança de voar com o presidente sob os céus da Turquia, num momento de guerra dos EUA contra o Irã.
Agora no g1
Ao contrário dos modelos antigos, o “novo” Air Force One não conta com sistema de defesa antimísseis, entre outros dispositivos, segundo o “NYT”.
O governo Trump não confirmou a informação, mas reagiu intimando os repórteres a depor à Justiça – e até ordenando às companhias telefônicas que quebrassem o sigilo das ligações de parentes dos jornalistas para descobrir de onde partiram os vazamentos. A atitude vai diretamente contra princípios básicos da liberdade de imprensa.
Na última segunda-feira (20), a Casa Branca confirmou que o novo Air Force One vai permanecer fora de serviço por cerca de um mês para passar por “melhorias”.
Entenda, abaixo, o caso dos aviões e seus desdobramentos:
'Antigo' Air Force One decola de aeroporto de Ancara, na Turquia, com Donald Trump a bordo, em 8 de julho de 2026
Jonathan Ernst/Reuters
➡️ “Air Force One” é um termo que passou a ser usado como sinônimo de avião presidencial dos EUA. Originalmente, ele é um código que se aplica apenas à aeronave no momento em que ela está transportando o presidente americano. É comum o governo alocar sempre dois aviões para cada agenda: uma titular e outra “reserva”, para o caso de qualquer avaria ou contratempo.
Atualmente, três aeronaves são responsáveis pela missão de levar Donald Trump para seus compromissos nos EUA e no mundo.
Dois deles, os mais famosos, são os Boeing VC-25, versões militares do 747-200B. Facilmente reconhecíveis pela pintura em azul claro, eles foram encomendados pela gestão Reagan, nos anos 1980, para substituir os envelhecidos Boeing 707 usados pela Casa Branca. A decoração dos espaços internos foi escolhida pela então primeira-dama, Nancy Reagan.
Os dois foram fabricados em 1986 e voaram pela primeira vez em 1987, mas só entraram em operação em 1990, já com o sucessor de Reagan, George H. W. Bush. O atraso se deu por conta de problemas na fiação dos sistemas de comunicação interna.
Além de serem adaptados para as necessidades presidenciais, como área reservada, sala de reunião e local para despachar, os modelos também são equipados com sistemas próprios de defesa.
Em seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021, Trump encomendou à Boeing novas aeronaves para servir como Air Force Ones. A encomenda sofreu atrasos sucessivos, e a mais recente previsão é que elas sejam entregues perto do fim de seu segundo mandato, em 2028.
Presente do Catar
Aeronave Boeing VC-25B Bridge, doada a Trump pelo emir do Catar e transformado no mais recente Air Force One
Julia Demaree Nikhinson/AP Photo
É aí que entra o novo Air Force One. Em 2025, Trump anunciou que o governo americano receberia a título de doação um Boeing 747-800 da família real catari, o qual serviria como Air Force One até a chegada das aeronaves definitivas.
Fabricado como uma versão privativa do enorme quadrijato, ele foi entregue à casa real de Thani, que governa o emirado do Catar, em 2023. Após a aquisição pelos EUA, ele foi renomeado como VC-25B Bridge (ou “ponte”, pois servirá como ligação entre os antigos e os novos Air Force Ones) e reformado internamente para atuar a serviço do presidente.
Trump disse no passado que, após a chegada da frota definitiva, a aeronave será incorporada à sua biblioteca presidencial.
A viagem inaugural ocorreu no último dia 1º de julho, num voo entre Washington e a Dakota do Norte. O avião recebeu uma pintura com um azul em tons mais escuros e detalhes em dourado, o que motivou comparações com a identidade visual do avião particular de Trump.
Na semana seguinte, o VC-25B Bridge foi usado novamente para levar Trump de Washington a Ancara, na Turquia.
O retorno, porém, foi quebrado em dois trajetos. O republicano embarcou no avião reserva em Ancara, e trocou para o novo Air Force One durante uma parada no Reino Unido.
Em uma reportagem do “New York Times” publicada em 8 de julho e assinada por quatro repórteres, foi revelado o motivo da troca: o Serviço Secreto havia pedido para que o presidente voasse na aeronave mais segura devido à proximidade com o Irã.
Citando fontes não identificadas, o jornal noticiou que a aeronave recém-incorporada "carece das mesmas contramedidas defensivas que eram recursos de segurança do modelo antigo, incluindo suas capacidades avançadas antimíssil".
Air Force One na pista da Base Aérea Conjunta Andrews, em Maryland
Mandel Ngan/AFP
Embora a Casa Branca não tenha confirmado oficialmente a versão do jornal, o governo americano lançou uma ofensiva jurídica contra os repórteres, intimando estes a depor à Justiça.
O Departamento de Justiça dos EUA defendeu as intimações, sob o argumento de que o governo quer saber quem são os funcionários do governo que estão vazando “informações confidenciais” que poderiam impactar a segurança nacional.
O governo intimou também as companhias telefônicas a quebrar o sigilo das conversas dos repórteres e de suas famílias.
Na quinta-feira (23), porém, a imprensa dos EUA noticiou que a Casa Branca estava voltando atrás nas intimações.
O sigilo da fonte – o direito do jornalista não revelar suas fontes de informação, quando necessário – é considerado um pilar da liberdade de imprensa nas democracias constituídas. Diversas vezes, Trump ameaçou processar veículos de imprensa que lançassem mão do sigilo para proteger suas fontes.
A aquisição de um avião presidencial a título de presente do governo catari levantou questões morais, mas também de segurança, já que uma aeronave é um equipamento extremamente complexo e poderia esconder, na teoria, equipamentos de monitoramento e espionagem.
Nesta segunda (20), sem admitir a falta de equipamentos de segurança, a Casa Branca admitiu que a nova aeronave passaria por “melhorias” que a deixarão no chão por cerca de um mês.
“O novo Air Force One é perfeitamente seguro para as viagens do presidente, mas receberá atualizações e melhorias adicionais no outono, cuja conclusão levará aproximadamente um mês”, disse a porta-voz, Karoline Leavitt, em um comunicado. “Durante esse período, o presidente voará no antigo Air Force One.” ...
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