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DNA na água revela peixe raro da Mata Atlântica e ajuda a encontrar nova população

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DNA na água revela peixe raro da Mata Atlântica e ajuda a encontrar nova população

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DNA na água revela peixe raro da Mata Atlântica e ajuda a encontrar nova população
Juliana Paulo da Silva
Uma espécie de peixe criticamente ameaçada de extinção foi encontrada sem que nenhum indivíduo precisasse ser capturado. A descoberta ocorreu em riachos da bacia do Rio Itapemirim, no sul do Espírito Santo, por meio da análise de DNA ambiental (eDNA), técnica que identifica vestígios genéticos deixados pelos animais na água.
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O estudo detectou a presença do bagrinho-de-kaetés (Trichogenes claviger) em três dos dez pontos amostrados e ampliou a área conhecida de ocorrência da espécie, considerada uma das mais raras da Mata Atlântica.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e do Instituto Nossos Riachos. Os resultados foram publicados na revista científica Neotropical Ichthyology.
Além do bagrinho, os pesquisadores identificaram outras 25 espécies de vertebrados nas amostras de água, incluindo 15 espécies de peixes, além de aves e mamíferos.
"O eDNA amplia nossa capacidade de enxergar a biodiversidade invisível. A técnica demonstrou desempenho maior comparado aos métodos tradicionais de coleta, identificando mais que o dobro de espécies por ponto de coleta", explica Juliana Paulo da Silva, pesquisadora do INMA e autora principal do estudo.
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Um peixe raro e cercado de desafios
O bagrinho-de-kaetés ocorre apenas nas cabeceiras da bacia do Rio Itapemirim. Por isso, sua distribuição é extremamente restrita, um dos principais fatores que explicam por que a espécie é tão difícil de encontrar.
Segundo Juliana, o peixe vive em ambientes muito específicos, com água cristalina, bem oxigenada e cercados por florestas preservadas.
Pequeno e discreto, costuma ficar escondido entre folhas e galhos acumulados nos riachos.
"Encontrá-lo exige bastante esforço e muitas horas de campo", afirma.
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A situação se torna ainda mais delicada porque o animal depende diretamente da conservação desses ambientes. Alterações como desmatamento da vegetação ciliar, assoreamento dos cursos d'água e outras mudanças na paisagem podem comprometer a qualidade do habitat e ameaçar a sobrevivência da espécie.
Além disso, o bagrinho-de-kaetés pertence a uma linhagem antiga de bagres, considerada importante para compreender a evolução desse grupo de peixes.
"Quando protegemos esse peixe, não estamos conservando apenas uma espécie, mas também uma parte importante da história da biodiversidade brasileira", destaca a pesquisadora.
Como o DNA revela espécies?
A técnica utilizada no estudo funciona como uma espécie de investigação genética da natureza.
Todos os organismos deixam rastros no ambiente por meio de escamas, muco, fezes e outros materiais biológicos. Esses vestígios permanecem na água, podem ser coletados e, depois, analisados em laboratório.
Local do estudo
Juliana Paulo da Silva
No estudo, os pesquisadores coletaram amostras de água dos riachos e realizaram uma filtragem para concentrar o material genético presente. Em seguida, o DNA foi extraído e sequenciado, permitindo identificar quais espécies haviam passado pelo local.
A principal vantagem é que o método consegue registrar animais raros, pouco abundantes ou difíceis de observar.
"Muitas vezes um peixe pode estar escondido ou em baixa abundância e não ser registrado pelos métodos tradicionais, como peneiras e redes. O DNA ambiental aumenta muito essa capacidade de detecção", explica Juliana.
Como dispensa a captura dos indivíduos, a técnica oferece uma forma menos invasiva de monitorar espécies ameaçadas e seus habitats, característica considerada importante para a conservação de animais em risco.
Importância dos riachos
Para os pesquisadores, os resultados mostram que os riachos de cabeceira da Mata Atlântica ainda guardam uma biodiversidade pouco conhecida.
Mesmo em uma região estudada há anos, a aplicação de novas tecnologias permitiu revelar populações que haviam passado despercebidas pelos métodos convencionais.
Embora a descoberta de uma nova população do bagrinho-de-kaetés represente uma boa notícia para a conservação, os pesquisadores alertam que a espécie continua em situação crítica.
"Ela ainda permanece restrita a poucos riachos e depende de ambientes muito preservados. Mas agora temos informações mais precisas sobre onde ocorre e podemos planejar estratégias mais eficientes de conservação", diz Juliana.
Segundo Heron Oliveira Hilário, pesquisador da PUC-MG e um dos autores do estudo, a tecnologia também abre caminho para monitoramentos mais precisos no futuro.
"O avanço permite monitorar com maior precisão a presença do bagrinho-de-kaetés e orientar estratégias de conservação mais eficazes para os riachos de cabeceira da Mata Atlântica capixaba, ambientes fundamentais e altamente vulneráveis", destaca.
O estudo também registrou espécies exóticas, como tilápias, que podem competir com a fauna nativa por alimento e espaço. Outro destaque foi a detecção de uma ave ameaçada de extinção no Espírito Santo.
Para os cientistas, a pesquisa reforça que mesmo pequenos riachos podem abrigar espécies únicas e insubstituíveis.
"Quando pensamos em conservação, muitas vezes imaginamos grandes rios ou grandes florestas. Mas é justamente nesses pequenos cursos d'água que vivem espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo", finaliza Juliana.
*Sob supervisão de Rodrigo Peronti.
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