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'Estamos juntos, Cabo Verde': o país que nasceu de um vulcão e incendeia a Copa do Mundo

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'Estamos juntos, Cabo Verde': o país que nasceu de um vulcão e incendeia a Copa do Mundo

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Fantástico vai até Cabo Verde conhecer a trajetória do goleiro Vozinha
Até poucas semanas atrás, Cabo Verde era conhecido por muitos brasileiros apenas como um pequeno arquipélago africano de praias paradisíacas e língua portuguesa.
Agora, o país de pouco mais de meio milhão de habitantes — população semelhante à de Florianópolis — se tornou uma das grandes histórias da Copa do Mundo de 2026.
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A seleção cabo-verdiana, apelidada de "Tubarões Azuis", disputa seu primeiro Mundial e já chamou a atenção ao arrancar um empate sem gols com a Espanha, atual campeã da Europa. Seu goleiro de 40 anos, Vozinha, virou herói nacional, emocionou torcedores ao chorar após a partida e se transformou em um fenômeno das redes sociais.
Mas o interesse despertado por Cabo Verde vai além do futebol.
👉 Localizado a cerca de 600 quilômetros da costa oeste da África, esse pequeno país insular tem uma história singular: foi um importante entreposto do tráfico transatlântico de escravizados, possui uma das democracias mais estáveis do continente africano, não tem rios permanentes nem fontes naturais significativas de água doce e é o berço da morna, gênero musical eternizado pela cantora Cesária Évora.
O país também é muito lembrado pela cultura que valoriza a união, o orgulho nacional e a solidariedade do povo das ilhas e da sua vasta diáspora, características celebradas pela famosa expressão "Nu sta djunto, Kabu Verdi".
Em crioulo cabo-verdiano, a frase significa "Estamos juntos, Cabo Verde", e vem sendo usada pelos torcedores locais — e simpatizantes do futebol ao redor do mundo — para apoiar o time.
Reunimos seis fatos que ajudam a entender por que Cabo Verde, o azarão simpático desta Copa, conquistou a imaginação do mundo:
1. Era habitado apenas por morcegos até a chegada de Portugal
A bandeira de Cabo Verde, adotada em 1992, exibe listras azuis, brancas e vermelhas que simbolizam o oceano, a paz e o esforço nacional. O círculo de dez estrelas representa as principais ilhas e sua unidade como nação.
Getty Images via BBC
Com uma superfície total de 4 mil quilometros quadrados, Cabo Verde é formado por dez ilhas, das quais nove são habitadas.
Sua única espécie endêmica de mamífero é o morcego-de-orelhas-cinzentas, que durante muito tempo dominou o arquipélago sem conviver com outros mamíferos até a chegada dos primeiros humanos, no século XV.
Após desembarcarem em 1456, segundo registros históricos, os portugueses fundaram Ribeira Grande, na ilha de Santiago. Hoje, a cidade se chama Cidade Velha e fica a poucos quilômetros de Praia, a capital e cidade mais populosa do país.
Portugal deu às ilhas o nome de Cabo Verde em referência ao ponto mais próximo do continente africano: a península homônima onde hoje está localizada Dakar, capital do Senegal.
O arquipélago se divide em dois grupos:
Ilhas de Barlavento: Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boa Vista.
Ilhas de Sotavento: Maio, Santiago, Fogo e Brava.
Dessas, apenas Santa Luzia permanece desabitada e constitui uma reserva natural.
2. Foi um importante entreposto do tráfico de escravizados entre África e América
Por sua posição estratégica entre a África e a América, Cabo Verde se consolidou, no século XVI, como um dos principais centros do tráfico transatlântico de escravizados, atividade que perdurou por mais de 300 anos.
Estima-se que cerca de 3 mil escravizados vindos do continente africano fossem vendidos anualmente em Cabo Verde com destino à Europa e às Américas. Alguns permaneceram no arquipélago, trabalhando nas minas de sal e nas primeiras plantações de algodão voltadas para Portugal.
A herança da escravidão marcou profundamente a demografia do país. A população é majoritariamente mestiça, resultado da mistura entre africanos e europeus — sobretudo portugueses —, algo confirmado por estudos genéticos.
Embora o idioma oficial seja o português, os habitantes também falam o crioulo cabo-verdiano, uma mistura do português com línguas africanas, que possui nove variantes, uma para cada ilha habitada.
A influência colonial também se reflete na religião: 72,5% da população é católica, segundo o anuário The World Factbook, da CIA.
3. Tem apenas 500 mil habitantes, menos da metade do número de turistas que recebe por ano
A grande distância entre as ilhas, o território reduzido — menor que um quinto da área de El Salvador, o menor país da América Latina — e o fato de apenas cerca de 11% da superfície ser cultivável, em meio a extensas áreas de rocha vulcânica, limitaram o crescimento populacional de Cabo Verde ao longo dos últimos cinco séculos e meio.
O Banco Mundial estimou a população em 524 mil habitantes em 2024.
Isso representa menos da metade dos 1,2 milhão de turistas que visitaram o arquipélago no mesmo ano, segundo dados oficiais.
O turismo é, de fato, o principal motor da economia cabo-verdiana, representando aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto (PIB), segundo diversas fontes, incluindo o Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
Os cabo-verdianos que vivem fora do país também superam os que vivem no arquipélago. O governo estimou em 2023 uma diáspora de cerca de 2 milhões de pessoas, principalmente em Portugal e nos Estados Unidos, embora esse número seja debatido por falta de estudos mais abrangentes.
4. É uma das democracias mais estáveis da África
Portugal transformou Cabo Verde de colônia em província ultramarina em 1951, mas a mudança não satisfez as crescentes aspirações por autonomia dos cabo-verdianos.
Nas décadas de 1950 e 1960, líderes como Amílcar Cabral uniram-se à luta de independência da Guiné-Bissau em uma guerra sangrenta contra Portugal.
O processo culminou com a independência de Cabo Verde, em 5 de julho de 1975.
O país viveu sob um sistema de partido único até 1990, quando surgiu o Movimento para a Democracia (MPD), abrindo caminho para o multipartidarismo e para as primeiras eleições democráticas em janeiro de 1991.
Desde então, Cabo Verde mantém uma vida política pacífica e estável, com alternância de poder e instituições consolidadas, incluindo presidente eleito, primeiro-ministro, Assembleia Nacional e Supremo Tribunal de Justiça.
Essa alternância foi reforçada em 2021, quando o atual presidente, José Maria Neves, de centro-esquerda, venceu as eleições após uma década de governo do MPD, partido de centro-direita.
Vozinha: apelido do goleiro de Cabo Verde começou como 'bullying'
5. Não possui rios nem fontes de água doce, mas abriga um vulcão ativo
Com clima extremamente seco, Cabo Verde não possui rios, lagos ou fontes significativas de água doce. Toda a água potável distribuída às residências vem de usinas de dessalinização.
As chuvas são escassas e as secas, frequentes, podendo durar anos, o que afeta a agricultura e já provocou crises alimentares no passado.
As ilhas, formadas por atividade vulcânica, apresentam paisagens áridas e acidentadas. Algumas são planas e cobertas por dunas, como Sal, Boa Vista e Maio. Outras se destacam pelos penhascos e relevos montanhosos, como Santo Antão e São Nicolau.
O ponto mais alto do país é o Pico do Fogo, com 2.829 metros de altitude. Trata-se do único vulcão ativo do arquipélago. Sua erupção mais recente, a mais longa em dois séculos e meio, ocorreu entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015.
Ela destruiu vilarejos inteiros, obrigou a evacuação de cerca de mil pessoas e provocou prejuízos superiores a US$ 50 milhões.
6. Possui gêneros musicais próprios: a morna de Cesária Évora e o funaná
A música faz parte da vida cotidiana em Cabo Verde e está presente tanto em festas populares quanto em celebrações familiares.
O gênero mais representativo é a morna, reconhecida pela UNESCO em 2019 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Com ritmo lento e tom melancólico, a morna expressa a saudade — da terra natal ou de pessoas queridas —, especialmente entre os cabo-verdianos que vivem no exterior.
Sua instrumentação inclui violão, cavaquinho, violino e percussão leve.
A grande embaixadora da morna foi a cantora Cesária Évora (1941-2011), que levou o gênero aos principais palcos do mundo.
O outro grande gênero musical de Cabo Verde é o funaná, caracterizado por um ritmo rápido e dançante, marcado pelo acordeão e pelo ferrinho.
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