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Família resgatada de trabalho escravo no CE sofria insegurança alimentar e tinha apenas macarrão instantâneo disponível

G1 (Globo)
Família resgatada de trabalho escravo no CE sofria insegurança alimentar e tinha apenas macarrão instantâneo disponível

Caseiro e família são resgatados de trabalho análogo à escravidão no Ceará
O caseiro de uma propriedade rural e a família dele foram resgatados de uma situação análoga à escravidão no município de Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza, em um cenário de “insegurança alimentar extrema”. No momento do resgate, a família tinha apenas um macarrão instantâneo para comer.
O resgate foi realizado um dia antes ao da operação que encontrou uma doméstica que passou 55 sem receber salário no município de Eusébio, vizinho a Aquiraz.
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Equipes da Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT) constataram que o trabalhador exercia a função de caseiro no local há cerca de 18 anos. Ele morava na propriedade com esposa e filhos, sem registro formal do vínculo empregatício e sem acesso aos direitos trabalhistas básicos.
A família resgatada vivenciou períodos sucessivos de extrema vulnerabilidade econômica. O homem e a esposa dele relataram que precisavam da ajuda dos vizinhos e de outros familiares para se alimentar.
Uma testemunha ouvida pela AFT acrescentou que o casal precisava de ajuda de terceiros para comer e comprar gás de cozinha.
Resgate e acordo com empregadores
Momento em que a AFT conversa com o caseiro sobre a situação identificada
Reprodução
O caseiro e a família foram retirados da propriedade e colocados em um imóvel alugado. O trabalhador e o empregador não tiveram a identidade revelada.
Testemunhas confirmaram a informação fornecida pelo trabalhador, que declarou que morava e prestava serviços na propriedade desde setembro de 2008.
Após o resgate, o empregador firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho, reconhecendo as irregularidades e se comprometendo a regularizar as questões trabalhistas do caseiro.
Diante da inexistência de documentos relativos ao vínculo empregatício, a Auditoria-Fiscal do Trabalho adotou essa data como marco inicial da relação de emprego para fins de apuração dos créditos trabalhistas, previdenciários e fundiários.
No entanto, o empregador reconheceu o vínculo empregatício apenas no período de julho de 2020 a junho de 2026, assumindo obrigações relacionadas somente a este intervalo.
Consta no Termo de Ajustamento de Conduta que a indenização paga não produz quitação plena, geral ou irrevogável dos direitos do trabalhador, nem impede o ajuizamento de ações destinadas à cobrança de outros valores eventualmente devidos.
Desta forma, uma discussão judicial posterior ainda pode acontecer para reconhecer o período alegado pelo trabalhador. Neste caso, também seriam reconhecidos os correspondentes créditos trabalhistas, previdenciários, fundiários e indenizatórios eventualmente devidos.
Promessa de emprego formal
A Auditoria-Fiscal do Trabalho divulgou que a vítima havia deixado sua cidade de origem após receber uma proposta de trabalho que previa assinatura da carteira de trabalho, pagamento de salário mínimo mensal, fornecimento de cesta básica e melhores condições de vida para sua família.
Para aceitar a oferta, ele vendeu a residência onde morava e se mudou com a esposa e os filhos para a propriedade rural. Mas as condições prometidas não foram cumpridas.
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O vínculo empregatício não foi formalizado, e a remuneração passou a ser paga de forma irregular, em valores progressivamente inferiores ao que havia sido acertado, segundo a AFT. Na pandemia da Covid-19, o pagamento ficou ainda mais reduzido e inconstante.
A fiscalização dos órgãos públicos constatou que o trabalhador era responsável por toda a manutenção da propriedade rural. Entre as atividades desempenhadas, estavam limpeza e conservação das áreas externas, poda de árvores, corte de grama, irrigação e adubação de plantas, limpeza de piscina, operação e manutenção de equipamentos.
Também foram identificadas atividades realizadas sem treinamento adequado e sem fornecimento de equipamentos de proteção individual.
Os depoimentos colhidos durante o resgate apontam que raramente o trabalhador conseguia encontrar a família no estado de origem e que pessoas que tentavam visitá-lo eram proibidas ou desencorajadas.
O caseiro também não podia ausentar-se da casa sem autorização e precisava deixar alguém responsável pela propriedade.
Condições da propriedade
Processo de escuta é um dos passos para entender relação trabalhador e empregador
Reprodução
Conforme relatório da AFT, a família residia em imóvel que apresentava problemas estruturais persistentes, como infiltrações e deterioração de partes da construção.
Os próprios moradores realizaram reparos improvisados para reduzir os riscos decorrentes da falta de manutenção da residência. Quando chegaram à propriedade, o imóvel possuía apenas um pequeno refrigerador e não dispunha de mobiliário básico. A família obteve parte dos móveis por meio de doações e materiais descartados.
Reconhecimento de irregularidades
No curso da fiscalização, o empregador reconheceu que a remuneração do caseiro não vinha sendo realizada de forma regular. No entanto, divergiu quanto ao início do vínculo.
A Auditoria-Fiscal do Trabalho estimou que os créditos trabalhistas devidos ao trabalhador alcançam aproximadamente R$ 180 mil, considerados férias não usufruídas, 13º salários, horas extras decorrentes do trabalho nos fins de semana e feriados, entre outras parcelas.
No Termo de Ajuste de Conduta (TAC), o empregador reconheceu o vínculo de emprego apenas a partir de 1º de julho de 2020, comprometendo-se ao pagamento de R$ 50 mil, divididos em duas parcelas: R$ 20 mil e R$ 30 mil.
Além disso, também foi acordada a necessidade da formalização do vínculo empregatício doméstico e da regularização dos recolhimentos previdenciários referentes ao período reconhecido.
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