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Pai e filha advogados trocam acusações após condenação por valores não repassados a cliente; veja o que diz cada lado

G1 (Globo)
Pai e filha advogados trocam acusações após condenação por valores não repassados a cliente; veja o que diz cada lado

Advogados são condenados após deixarem de repassar R$ 239 mil de ação ganha a cliente
A condenação do escritório de advocacia Cremasco e dos advogados José Antonio Cremasco e Thais Proença Cremasco por não repassarem R$ 239.551,93 a um cliente expôs acusações entre pai e filha sobre quem seria o responsável pelos valores recebidos em ações trabalhistas.
⚖️ Entenda: segundo a decisão, um trabalhador venceu uma ação, mas não recebeu a indenização. Após descobrir que o valor já havia sido levantado pelo escritório e não obter resposta dos advogados, acionou a Justiça, que condenou os Cremasco a devolverem a quantia.
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Na decisão publicada na sexta-feira (3), a Justiça condenou os dois advogados e o escritório a pagarem o valor da indenização trabalhista a qual o cliente tem direito, além de R$ 20 mil por danos morais. A Polícia Civil também investiga outros casos.
Em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo, Thais responsabilizou José Antonio, de quem é filha, pelas supostas apropriações. Já José Antonio afirmou, em nota, que a filha era quem detinha a gerência das contas durante o período em que teriam ocorrido os problemas.
O que diz Thais
Thais e José Antonio Cremasco foram condenados a pagar trabalhador
Reprodução/EPTV/Divulgação
Ela nega ter se apropriado dos valores e afirma que, no caso da condenação e em outros semelhantes, o dinheiro não foi depositado em sua conta, dizendo que soube do problema por meio dos próprios clientes.
Sustenta que os contratos eram com o escritório do pai, José Antonio Cremasco, e que ela não trabalha mais no escritório desde 2024, após romper relações em razão das reclamações de clientes.
Afirma que José Antonio era quem determinava a conta para onde os valores dos processos deveriam ser enviados. Segundo ela, os advogados da equipe transferiam os recursos para a conta indicada por ele, e cabia exclusivamente ao pai fazer o repasse aos clientes.
Diz que, quando os clientes reclamavam da falta de pagamento, ela levava os questionamentos ao pai, que respondia que "o processo é meu, o cliente é meu, passe o cliente para mim que eu vou resolver".
Declara que nunca imaginou que o pai pudesse estar se apropriando do dinheiro dos clientes, afirmando: "Jamais eu, enquanto advogada, enquanto filha, imaginei que ele poderia estar se apropriando de dinheiro de clientes."
Afirma que, antes do rompimento da relação em 2024, José Antonio teria assinado um documento reconhecendo a responsabilidade pelas dívidas com os clientes.
Diz que, embora seja "muito difícil reconhecer isso como filha", considera "muito nítido" que José Antonio cometeu apropriação indébita.
Também afirma que a relação de confiança com o pai fez com que ela assinasse documentos em branco e emprestasse seu nome, acreditando que ele nunca cometeria esse tipo de conduta. Segundo suas palavras, essa confiança a levou a acreditar que ele "jamais seria capaz de cometer todas essas atrocidades".
Por fim, informa que se colocou à disposição para ajudar as supostas vítimas, propondo pedir a penhora de honorários advocatícios de futuros processos do escritório para ressarcir os clientes.
O que diz José Antonio
Ele atribui a responsabilidade pelas supostas apropriações à filha, Thais Proença Cremasco, afirmando que, entre 2022 e 2024, ela "detinha total gerência tanto da conta corrente de minha conta empresarial como de sua própria".
Diz que, mesmo sem ter a gestão financeira do escritório nesse período, vem encaminhando e pagando processos de clientes, inclusive em situações em que os valores não foram depositados em sua conta empresarial nem ficaram à sua disposição.
Afirma que Thais não tem mais vínculo com a Advocacia Cremasco desde novembro de 2024 e que há um processo judicial de prestação de contas referente ao período em que ela teria administrado as finanças.
Sustenta que não há notícia de clientes que deixaram de receber valores em processos anteriores a 2022 ou posteriores ao ano de 2025, restringindo os problemas ao período em que atribui a gestão financeira à filha.
Informa que, em agosto de 2025, contratou um profissional especializado em administração de escritórios, sem relação pessoal com ele, para organizar financeiramente os recebimentos e evitar novos problemas.
Afirma que o Poder Judiciário continua emitindo alvarás de levantamento em nome de Thais, embora, segundo ele, a procuração especial para recebimento tenha sido revogada quando ela deixou o escritório, em novembro de 2024.
Por fim, reconhece a responsabilidade pelo nome do escritório e diz que está à disposição de todos os clientes.
Diz que está pagando os clientes em atraso à medida que recebe novos valores.
Entenda o caso que levou à condenação
De acordo com a decisão do juiz Felipe Guinsani, da 7ª Vara Cível de Campinas, um homem contratou o escritório Cremasco para defendê-lo em uma ação trabalhista que tramitou na 10ª Vara do Trabalho de Campinas.
O trabalhador venceu o processo, no valor de R$ 319.402,58. Pelo contrato, 25% ficariam com o escritório a título de honorários advocatícios, enquanto R$ 239.551,93 deveriam ser repassados ao cliente.
Segundo a decisão, o homem descobriu, por meio de um alvará judicial, que o pagamento já havia sido feito a uma conta relacionada ao escritório. Após notificar extrajudicialmente os advogados e não obter resposta, ingressou com ação para receber o valor.
Na sentença, o juiz entendeu que os advogados levantaram os valores da ação trabalhista e deixaram de repassá-los ao cliente, retendo quantia superior à prevista no contrato.
Além desse caso, a Secretaria da Segurança Pública informou que a Polícia Civil investiga outros supostos casos de apropriação de valores destinados a trabalhadores em processos sob responsabilidade do mesmo escritório e dos mesmos advogados.
Há, pelo menos, nove inquéritos, sendo um deles instaurado em 2025 após denúncia encaminhada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo.
Outros casos
Felipe contou ter sido uma das vítimas após vencer processo trabalhista
Reprodução/EPTV
A EPTV conversou com outras duas supostas vítimas da situação. O ambulante Felipe Costa Araújo sofreu um acidente na empresa de pintura onde trabalhava, foi demitido e moveu uma ação trabalhista. Ele ganhou o processo em 2018, mas passou a desconfiar que a parte a que tinha direito do valor recebido pelo escritório Cremasco não foi repassada.
"Comecei a ligar para eles e querer o dinheiro e eles só me enrolando, me enrolando, me enrolando. E aí eu cansei e coloquei outro advogado para ver o que estava acontecendo. Quando fui ver, eles já tinham recebido o dinheiro", contou Felipe.
Já Edson Vidotti, moveu um processo trabalhista contra a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) em 2021 e ganhou. A empresa fez os pagamentos em seis parcelas, uma delas superior a R$ 200 mil, mas o escritório não fez o repasse. "Eu ia lá e eles falavam: 'não caiu mais, não caiu dinheiro'. Várias vezes. Não atendia a gente corretamente", relatou.
De acordo com os advogado Danilo Andrietta, que defende Edson, o escritório Cremasco transferiu apenas R$ 55 mil, retendo em torno de R$ 370 mil, que seria de direito dele após o desconto dos honorários.
"A justificativa deles é que eles estavam com problemas operacionais e dificuldades de identificar qual recurso era de qual cliente e que, por conta disso, eles não haviam conseguido fazer a transferência. Uma justificativa que não fazia o menor sentido", disse Danilo.
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