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Chef do litoral de SP assume restaurante em Noronha e relata desafio de ser mãe solo

G1 (Globo)
Chef do litoral de SP assume restaurante em Noronha e relata desafio de ser mãe solo

Chef Sabrina Costa saiu do litoral de SP para comandar o Benedita Cozinha, em Noronha
A chef Sabrina Costa aceitou o desafio de assumir a cozinha do restaurante Benedita Cozinha Afetiva, em Fernando de Noronha, enquanto enfrentava outro turbilhão na vida pessoal: ser mãe solo de uma menina de um ano. Nascida em Santos e criada em São Vicente, no litoral de São Paulo, ela afirmou que a gastronomia nunca foi uma escolha, mas um chamado.
"Cozinhar sempre foi algo muito forte dentro de mim. Sempre gostei, amei e não conseguia me imaginar fazendo outra coisa. Nunca tive uma segunda opção", afirmou.
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Antes de estar à frente do Benedita, Sabrina atuou nos restaurantes Madê e Paru, também do chef Dário Costa. Apesar dos desafios de aliar a maternidade à carreira, ela acredita que o maior legado que pode deixar para a filha é o exemplo de uma mulher que não desistiu dos próprios sonhos.
Ao g1, a chef relembrou o início da trajetória na Baixada Santista, falou sobre as experiências que moldaram a carreira e sobre os desafios de cozinhar em uma ilha.
Sabrina Costa é chef do Benedita Cozinha Afetiva.
Arquivo Pessoal
Confira a entrevista completa abaixo:
Sua história na gastronomia começou em Santos. Como surgiu essa paixão e quando você decidiu que queria viver da cozinha?
Nasci em Santos, mas morava em São Vicente com os meus pais. Eu falo que a profissão me escolheu. Nunca cheguei a pensar em fazer outra coisa, porque, desde criança, era algo de que eu gostava muito.
Desde os 6 ou 7 anos de idade, eu já falava que, quando crescesse, queria ser cozinheira. E acabou que levei a brincadeira a sério. Sempre foi o meu sonho de vida me formar, fazer gastronomia e seguir nessa área. Cozinhar sempre foi algo muito forte dentro de mim. Sempre gostei, amei e não conseguia me imaginar fazendo outra coisa. Nunca tive uma segunda opção.
Você passou por cozinhas importantes da cidade, como o Madê e o Paru. O que cada uma dessas experiências acrescentou à chef que você é hoje?
A minha experiência tanto no Madê quanto no Paru foi a principal base da minha trajetória dentro da cozinha profissional. Até porque participei da abertura dos dois restaurantes. Quem já deu start em uma operação de restaurante, ou de qualquer outro negócio, sabe o quanto isso é desafiador.
Você vai entendendo a dinâmica de funcionamento, da equipe e de todos os processos. A gente aprende junto com todo mundo. É uma experiência muito bacana participar da abertura de um negócio do zero. Você aprende muito, tanto em relação à liderança de equipe quanto ao funcionamento do operacional.
Isso me ajudou muito, inclusive na abertura do Benedita, que tem a dinâmica completamente diferente por estar dentro de uma ilha. Para mim, foi fundamental em termos de experiência, para conseguir lidar com as adversidades e as dificuldades do dia a dia, porque a cozinha é uma área muito dinâmica.
Depois veio Fernando de Noronha. Como foi trocar a cozinha do litoral paulista por um dos destinos gastronômicos mais disputados do país?
Fernando de Noronha foi um desafio muito louco, até porque é um lugar desejado por muitas pessoas e muito turístico. Eu já tenho uma ligação muito forte com o Nordeste, porque minha família é nordestina. Minha mãe é pernambucana, meu pai é sergipano, mas também tem um lado caiçara.
Para mim, não foi uma ruptura muito grande em relação à cultura. Mas Fernando de Noronha traz desafios muito complexos. A dinâmica do restaurante, por si só, já é intensa.
A gente fica responsável pelas pessoas, tem a questão do alojamento, e a logística é completamente diferente. Tudo chega de barco ou de avião. Acredito que, de todas as experiências que tive até hoje, Noronha foi a mais desafiadora e a que mais me fez evoluir profissionalmente e até pessoalmente.
A chef Sabrina Costa está à frente do Benedita Cozinha Afetiva.
Divulgação/Benedita Cozinha e Reprodução/Redes Sociais
O que essa experiência em Noronha mudou na sua forma de cozinhar e de liderar uma equipe?
Tenho uma ligação muito forte com o Nordeste por causa da minha base familiar, mas Noronha trouxe uma forma de liderar ainda mais afetiva. Além do afeto em relação à cozinha e ao que eu acredito, a gente acaba se tornando mais próximo das pessoas, porque todo mundo que está ali, de certa forma, abre mão de estar com a família e do conforto de casa para viver uma experiência em um dos destinos gastronômicos mais desejados do país.
Isso dá visibilidade para quem está na ilha, mas também exige muitas renúncias. A questão de liderar pessoas se tornou muito mais presente para mim. É impossível ser chefe de cozinha sem saber liderar pessoas. Acho que essa é uma das principais características que precisamos ter, porque são as pessoas que fazem tudo acontecer.
Noronha trouxe muito isso, porque a gente trabalha e mora junto, convivendo todos os dias. Criamos uma ligação muito forte. Aprendemos a ter um olhar de cuidado, tanto com o cliente quanto com quem está ao nosso lado no dia a dia.
Hoje, à frente do Benedita, qual é a essência da cozinha que você busca entregar aos clientes?
A essência da cozinha que eu busco entregar aos clientes é, literalmente, o cuidado. Independentemente do prato servido, existe um respeito muito grande pelos alimentos com os quais trabalhamos, até porque temos uma responsabilidade ainda maior.
Imagina a logística que é trazer até um simples coentro? Muitas vezes ele precisa vir de avião para garantir que chegue com qualidade. A essência da cozinha que quero entregar é justamente essa: respeito tanto com o alimento quanto com a equipe, para que a gente consiga oferecer uma experiência da forma mais honesta possível.
A sua cozinha tem uma forte conexão com o mar. Como os ingredientes do litoral influenciam o seu trabalho?
Sim, tenho uma forte conexão com o mar. Meu pai pesca, é o principal hobby dele. Desde criança, tenho lembranças dele chegando da pescaria, de eu ajudando a limpar os peixes e de a gente preparando tudo junto. Minha mãe também sempre gostou de fazer muita coisa na brasa. A gente acaba trazendo essas raízes para a cozinha.
A minha cozinha é muito essa mistura de peixe, mar e brasa, que é o que eu mais gosto. Ainda brinco que coentro também não pode faltar, porque minha mãe é nordestina e eu amo comida bem raiz, bem afetiva. Gosto de servir aquilo que gosto de comer, ingredientes que sempre fizeram parte da minha vida. Acho que a gente precisa se identificar com o que serve.
Quando as pessoas vão a um restaurante, elas precisam viver uma experiência. O prato tem que contar uma história, tem que fazer sentido.
Você acredita que a culinária caiçara ainda é pouco explorada pelos restaurantes? O que ela tem de único?
Acho que sim. A culinária caiçara poderia ser muito mais explorada e até mais divulgada, porque muitos lugares usam técnicas caiçaras sem saber a origem delas.
Não sabem que aquilo é pura técnica: salga, secagem, cura, armazenamento, conservação na gordura. São várias técnicas da cozinha caiçara, mas as pessoas desconhecem porque realmente isso é pouco falado. Principalmente o respeito ao alimento, à sazonalidade e ao tempo de preparo. A culinária caiçara tem essa característica de preparos mais longos, feitos na lenha.
É um universo muito rico. A gente consegue extrair o melhor do alimento trabalhando com ele na época certa, e isso proporciona uma experiência diferente para o cliente. Como eu disse, muitas vezes as pessoas usam uma técnica caiçara sem saber sua origem, justamente porque esse conhecimento ainda é pouco difundido.
Chef Sabrina Costa concilia a rotina da cozinha com a maternidade solo.
Divulgação/Benedita Cozinha
Qual foi o maior desafio da sua carreira até agora e o que ele te ensinou?
Sem dúvida nenhuma, o meu maior desafio na carreira, e o que mais me ensinou, foi ter ido para Fernando de Noronha. Por uma junção de fatores: tanto pelo desafio de liderar um restaurante com mais de 30 funcionários em uma ilha quanto por ter ido para lá com a minha filha de apenas 1 ano de idade.
Era um momento de um verdadeiro turbilhão pessoal. Eu estava com uma bebê, era mãe solo e, ao mesmo tempo, assumia o desafio de liderar um restaurante com mais de 30 funcionários. Eu falo que não sei quem foi mais louco: os sócios que me fizeram a proposta ou eu que aceitei. Mas não me arrependo. Foi transformador na minha vida. Faria isso quantas vezes fossem necessárias, porque essa experiência me transformou como mulher, como mãe, como chefe e como líder.
Como você concilia a maternidade com a sua profissão?
Até paro para me perguntar isso, às vezes. Mas eu não sou a primeira e, infelizmente, nem a última mãe solo do mundo. Como tantas outras mães, a gente não para muito para pensar, a gente simplesmente faz o que precisa ser feito. Escolhi não abrir mão da minha profissão, de continuar crescendo e me desenvolvendo profissionalmente, porque acredito que o maior bem que posso deixar para minha filha é o exemplo.
Quero muito que, quando ela crescer, seja uma mulher forte, independente e que acredite nos próprios sonhos. Se eu não fizer isso por mim, como ela vai acreditar que isso é possível? Também tenho uma empresa que me dá oportunidades para isso e me apoia.
Infelizmente, essa não é a realidade de muitas mulheres, o que não diminui os desafios do dia a dia. É muito difícil liderar uma equipe, ter vários colaboradores que, de certa forma, se espelham em você e, ao mesmo tempo, cuidar de uma filha pequena, da casa e de toda a rotina. Mas a gente não para muito para pensar nisso. A gente simplesmente faz.
O que a gente queria mesmo era mais equidade entre os papéis de homem e mulher na maternidade. Mas essa ainda não é a realidade. Acho que romantizam demais esse título de "mulher guerreira", e a gente nunca quer ser guerreira, porque custa muito.
Penso muito no que quero deixar para a minha filha. Acho que estamos construindo uma história bonita juntas. Temos uma conexão muito forte e acredito que tudo isso que faço hoje, lá na frente, vai refletir em um resultado positivo para mim e para ela.
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