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Por que fãs assistem ao mesmo musical dezenas de vezes? Emoção, surpresa e sensação de pertencimento explicam fenômeno

G1 (Globo)
Por que fãs assistem ao mesmo musical dezenas de vezes? Emoção, surpresa e sensação de pertencimento explicam fenômeno

Por que fãs assistem ao mesmo musical dezenas de vezes?
Assistir ao mesmo espetáculo uma, duas ou até cinco vezes pode parecer comum para quem gosta de teatro. Mas há fãs que vão muito além. Em cartaz desde 2016 no Brasil, o musical "Wicked" já reuniu espectadores que acompanharam dezenas — e até mais de uma centena — de apresentações da mesma montagem, movidos pela emoção do teatro ao vivo, pela identificação com a história e pelo vínculo criado com artistas e outros fãs.
Os números ajudam a explicar o tamanho do fenômeno. Somando as temporadas de 2025 em São Paulo, o musical deve alcançar 500.111 espectadores.
Desde a estreia brasileira, "Wicked" já ultrapassou 1 milhão de espectadores em São Paulo. Entre esse público, há fãs que chegam a comprar 30 ingressos para completar programas de fidelidade do espetáculo e outros que acompanham praticamente toda a temporada.
Fãs gastam até R$ 15 mil para assistir ao mesmo espetáculo dezenas de vezes
Arquivo pessoal
É o caso da professora Maria Cristina Santos Vargas, de 27 anos, moradora da capital paulista. Ela assistiu ao musical mais de 100 vezes durante a temporada paulista e já viajou ao Rio de Janeiro para acompanhar a nova montagem do musical.
"O roteiro é o mesmo, as falas são as mesmas, mas toda vez que eu vou assistir é uma experiência diferente. Essa é a magia do teatro. Os atores entregam de uma maneira diferente, acontece algo inesperado, e eu também sou uma pessoa diferente a cada sessão", diz, em entrevista ao g1.
Além dos ingressos, Maria Cristina calcula ter investido mais de R$ 10 mil entre viagens, hospedagem e alimentação para acompanhar o espetáculo.
Segundo ela, a repetição nunca se torna cansativa.
"O que me dá mais prazer é essa imprevisibilidade, essa possibilidade de todo dia que eu for assistir ser um espetáculo novo. A produção consegue fazer a gente se sentir dentro do universo de Oz."
A professora também afirma que, por acompanhar tantas apresentações, acabou criando uma rede de amizades, o que também aproximou o público do elenco.
"Virou um rolê de amigos. Pessoas de profissões diferentes, que são motivadas pelo amor ao musical. A gente passa uma semana junto assistindo às sessões e vivendo essa experiência."
Outro fã atravessou o país para rever a mesma história: Kauan Henrique Ruela Bittencourt, de 19 anos, filmmaker e social media de Belém (PA). Ele já assistiu a "Wicked" 17 vezes em São Paulo e pretende chegar a cerca de 25 sessões com a temporada carioca.
Entre passagens, hospedagem e ingressos, calcula ter gasto entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Para ele, a principal explicação para voltar tantas vezes está justamente no que não pode ser previsto.
"Pode ser um tom de voz diferente, uma nota que foi atingida, um ator que errou uma fala. A gente gosta de sentir que aquela sessão foi especial e ter uma história para contar", detalha.
Kauan lembra, por exemplo, de uma apresentação em que um efeito técnico não aconteceu como planejado.
"Na minha sessão [de 'Wicked'], a Elphaba [interpretada por Myra Ruiz na versão brasileira] não voou. Quando ela subiu, também estava sem luz. Foi completamente diferente. É esse inédito que faz a gente querer voltar", explica.
A emoção também pesa na decisão de investir tempo e dinheiro para repetir uma experiência já conhecida.
"O que me move é a emoção de estar ali vendo os atores. O choro, a felicidade, o arrepio. Parece que aquilo realmente está acontecendo diante dos seus olhos. Isso faz querer voltar várias vezes."
Fotos, ingressos e fundos de telas temáticos dos celulares dos fãs de musicais
Arquivo pessoal
O cérebro busca novidade e conforto
Para a psicóloga Graziela Campos, especialista em Transtorno do Controle do Impulso e Dependências Comportamentais pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, assistir repetidamente ao mesmo espetáculo não significa necessariamente buscar novidade, mas reviver uma experiência emocional marcante.
"Quando falamos de alguém que conhece todo o roteiro e mesmo assim decide novamente prestigiar um musical, não estamos diante da curiosidade sobre algo novo, e sim, de uma experiência que mobiliza sentimentos e emoções."
Segundo ela, memória e emoção atuam juntas. "Quando recordamos algo marcante, os circuitos emocionais são ativados. Alegria, saudade, sensação de segurança e outras emoções voltam porque aquela experiência já tem um significado importante para a pessoa."
Ao mesmo tempo, o fato de conhecer a história reduz a ansiedade provocada pela incerteza.
"Existe menos risco de frustração quando já sei o que está por vir. Às vezes, a pessoa não está buscando novidade, mas aquilo que aquela experiência significa para ela."
No caso do teatro, porém, há um diferencial em relação a filmes e séries vistos repetidamente.
"O teatro é ao vivo. Nunca é exatamente igual. Existe interação com a plateia, pequenas mudanças de interpretação e uma experiência coletiva muito intensa. Mesmo assistindo ao mesmo musical, a experiência nunca é exatamente igual."
A psicóloga afirma que isso ajuda a explicar por que tantas pessoas voltam diversas vezes ao mesmo espetáculo.
"Quem muda também somos nós. Assistimos à mesma história em momentos diferentes da vida e podemos perceber novos detalhes, fazer novas interpretações e viver emoções diferentes."
É uma compulsão?
Graziela Campos ressalta que a frequência do hábito, por si só, não caracteriza um comportamento compulsivo.
"O principal equívoco é pensar que assistir muitas vezes ao mesmo espetáculo indica um problema psicológico. O que avaliamos é se existe perda de controle, sofrimento ou prejuízo importante na vida da pessoa. Se ela organiza sua rotina e seu orçamento porque aquilo lhe proporciona prazer e bem-estar, pode ser apenas um hobby muito significativo."
Os próprios fãs parecem resumir essa lógica. Embora conheçam cada cena, cada música e cada fala, voltam ao teatro justamente porque sabem que, diante de um palco e de uma plateia diferentes, nenhuma apresentação será exatamente igual à anterior. ...

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