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Da roça à Festa do Morango: família Maziero mantém tradição por quatro gerações em Atibaia

G1 (Globo)
Da roça à Festa do Morango: família Maziero mantém tradição por quatro gerações em Atibaia

Plantação de morango da família Maziero, em Atibaia (SP)
Gustavo Honório/g1
A Festa do Morango de Atibaia e Jarinu cabe em números grandes, com milhares de caixas vendidas, dezenas de expositores, centenas de trabalhadores e cerca de 120 mil visitantes ao longo dos quatro fins de semana de evento. Mas, antes de tudo, a festa cabe dentro de uma só família.
Na plantação, na cozinha, na barraca, na organização e até na faculdade, o morango foi passando de mão em mão, de geração em geração entre os Maziero. Começou com Duílio, avançou para o filho Osvaldo, seguiu com o neto Rafael e já encontra continuidade em Vittor, bisneto e estudante de agronomia.
Pelo caminho, ganhou ainda outros braços da família: Rosangela transformou a fruta em pão e doce, Izabela, outra neta de Osvaldo, passou a dar as caras nos eventos e quer seguir trabalhando nesse universo.
“O morango é vida”, resume o senhor Osvaldo Maziero. Simpático, humilde e de bem com a vida, ele é o atual responsável pela festa e presidente da Associação dos Produtores de Morangos e Hortifruti de Atibaia, Jarinu e Região.
É daqui que a gente tira o nosso sustento. Daqui que eu aprendi a vida também, tudo que o meu pai me ensinou. Eu tenho no sangue o morango
A frase ajuda a explicar por que a festa nunca foi só uma festa para os Maziero. Ela virou extensão da roça, da memória e da própria identidade da família, já que o evento acontece basicamente no quintal de casa, o Parke do Morango Duílio Maziero, na divisa entre os dois municípios.
Conselho japonês
A história começou fora de Atibaia. A família é de Jundiaí e tinha tradição no cultivo da uva niágara. Em 1966, Duílio Maziero comprou uma pequena propriedade na região e manteve o que já conhecia bem: a viticultura, tão associada às famílias italianas do interior paulista. O morango foi quase um desvio de rota que deu certo no final.
Vizinho de córrego dos Maziero, o japonês Minoru Kobayashi incentivou a família a experimentar a nova cultura. “Para nós era uma cultura diferente. A gente até falava: ‘É cultura de japonês’”, lembra Osvaldo.
O vizinho insistiu, ensinou, indicou o tipo de muda e orientou o manejo. Aos poucos, o morango foi ganhando espaço ao lado da uva e mudando o rumo da propriedade.
“O pessoal sabia que, em Atibaia, quem plantava morango era japonês. Aqui, se falava morango, era japonesada", brincou.
“Ele insistiu e foi dando as dicas de muda, onde comprar, como fazer o tratamento. Deu muito certo na nossa vida. Veio de bom agrado na nossa família."
Osvaldo Maziero
TV Globo
Do São João à Festa do Morango
A Festa do Morango nasceu em 1987 como uma quermesse dedicada a São João e ganhou estrutura com o passar dos anos — em 2026, chegou à 42ª edição.
Osvaldo conta que, nos primeiros anos, tudo era bem menor. “A festa ficou três anos como se fosse uma festinha aqui no bairro.”
A virada aconteceu quase naturalmente: Duílio plantava morango numa área em frente ao local do evento, que era a residência da família à época. Durante os domingos, passaram a vender a fruta para quem passava por ali.
“Daí surgiu a ideia: por que não associar uma festa de São João com a Festa do Morango?”
Hoje, segundo a Prefeitura de Atibaia, a festa reúne 56 expositores no geral, mobiliza mais de 300 trabalhadores, tem cerca de 50 produtores no concurso do melhor morango, 10 produtores com barracas de venda e comercializa cerca de 45 mil caixas da fruta ao longo do evento.
Para Osvaldo, a essência continua a mesma. “A festa não é só pelo valor em dinheiro, mas também para que as pessoas venham aqui, se sintam bem, fiquem, passem um dia aqui e voltem para casa felizes.”
Quem chega ao espaço encontra praça de alimentação, venda de morangos e flores, minishopping, parque de diversões e shows regionais.
As quatro gerações
Osvaldo tinha entrado na adolescência quando começou a ajudar no morango. Primeiro, na distribuição das mudas no canteiro. Depois, no manejo de uma lavoura que ainda não tinha os recursos, a tecnologia nem o conhecimento de hoje.
“Naquela época era capim, não é que nem hoje que tem plástico, era mais dificultoso, mas foi muito bom. Aprendi muito com meu pai."
Depois, veio Rafael, filho de Oswaldo, hoje com 43 anos e já à frente da produção da família.
A propriedade trabalha não só com morango, mas também com hortaliças e grãos em rotação de cultura. Na área mostrada pela família, a produção ainda é a céu aberto, em sistema mais tradicional, embora a migração para modelos mais tecnológicos, como a estufa, esteja no horizonte.
“Essa produção é toda focada para a festa”, explica Rafael. “Temos aqui em torno de um hectare, aproximadamente 60 mil plantas. A expectativa nossa é de 35 mil a 40 mil caixas de morango.”
“A festa proporciona você ter o contato diretamente com o cliente, com o público. Muitas pessoas vêm fazer perguntas para a gente, por que o morango chega mais doce, por que que o morango é assim. Essa interação com o público faz com que a gente mostre para o pessoal que é um trabalho, é uma dedicação muito grande para poder chegar nisso.”
“O morango chega mais doce porque a gente aguarda o momento certo de colheita”, resume.
“Eu me lembro do meu avô andando na lavoura, eu vendo ele trabalhando, acompanhando o pessoal que trabalha com a gente. Vendo o meu pai... Isso virou uma paixão na nossa vida.”
Vittor Maziero, filho de Rafael e neto de Osvaldo, também cresceu no meio da produção e decidiu transformar essa convivência em projeto profissional: já está no terceiro ano de engenharia agronômica e diz que pretende levar para a propriedade novas práticas e tecnologias.
“Eu nasci aqui, cresci aqui, aprendi com meu pai, com meu avô como cuidar da terra, como cuidar da planta. Eu vivo para isso. A minha vida vai ser isso.”
Vittor, Osvaldo e Rafael
TV Globo
Na faculdade, ele vem reunindo o que aprende em sala com o que ouve dentro de casa. O que ele vê para o futuro da lavoura tem a cara dessa mistura entre tradição e técnica.
“Várias coisas que eu aprendi na faculdade eu venho trazendo para eles, como práticas de manejo, tipo de adubação, um cultivo menos agressivo, que possa produzir mais. Tudo isso eu trago da faculdade e vou falando com eles."
Morango até no pão
Na família Maziero, a sucessão não acontece só na roça. Enquanto Rafael e Vittor tocam a produção, Rosangela Maziero levou a fruta para a cozinha. Confeiteira e padeira, ela trabalha com o marido, as filhas e outros parentes na produção de pães e preparos que também entram no circuito da festa.
Apesar de o carro-chefe dela ser o pão de uva (sim!), o pão de morango foi um pedido especial do pai. Impossível negar.
“O ingrediente de maior destaque a gente pega com o meu irmão, direto da roça do Rafael. É tudo da família, né? Tudo junto e misturado."
A filha, Izabela, acompanha esse processo de perto e diz que se sente parte de uma construção maior.
“Dá muito orgulho poder fazer parte de tudo isso, né? Ver o que eles construíram com a produção de morango, e agora poder trazer o pão de morango também, que foi um pedido do meu avô. Trabalhar em família para mim é muito maior, me dá muito mais orgulho.”
“A festa é tudo. Poder estar com o meu avô, poder estar com a minha avó, todos os finais de semana. Poder estar com a minha mãe... Para mim é muito gratificante", contou, enquanto segurava as lágrimas.
O 'morango do amor'
Talvez nenhuma imagem explique melhor a fusão entre fruta, família e memória do que uma história guardada por Osvaldo há décadas. O bolo de casamento dele com Maria Maziero, em 1977, foi feito com morangos plantados pela própria família.
“O nosso bolo de casamento foi de morango que meu pai plantou. Era o início de plantio, a gente não estava plantando em quantidade, mas foi o 'morango do amor'", relembrou.
Potência paulista
A história da família ajuda a explicar a dimensão que o morango ganhou na região: dados da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo apontam que Atibaia e Jarinu contam com aproximadamente 200 produtores e parceiros dedicados à cultura, somando cerca de 2 milhões de pés de morango plantados em campo e estufa. A produção média é de 1.600 toneladas por safra ao ano.
Hoje, Atibaia e Jarinu ocupam o primeiro lugar isolado na produção de morango no estado de São Paulo. No país, a região aparece em terceiro lugar, atrás apenas de Minas Gerais e Espírito Santo.
3ª Festa do Morango
Arquivo pessoal ...

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